Idéias centrais de artigo publicado em 1935, numa série de oito edições do periódico “Aktion” em Porto Alegre de 1933 a 1936, em alemão.
"Tolstoi e o reconhecimento do anarquismo” – Pierre Ramus
Alceu João Gregory
Segundo o autor Pierre Ramus, a ciência teria a fama de ‘esclarecer’ as pessoas. Mas levando-se em conta que ela oferece esse esclarecimento apenas em forma de hipóteses negativas ou positivas, o povo não teria condições de experimentá-las nem de entendê-las, de modo que não significariam para este nenhuma renovação espiritual nem de consciência crítica. Quantas pessoas estariam em condições de estudar a teoria da criação de Kant e Laplace? Quantos conseguiriam compreender a teoria de Einstein sobre a relatividade? Ou a origem das espécies de Darwin? E aqueles que entenderiam estas coisas, o que saberiam sobre o direito de igualdade de todas as pessoas e raças? Da solidariedade como compromisso de vida da humanidade? Do objetivo principal do ‘eu’ na plena realização de uma vida livre?
A grande maioria dos acadêmicos nada saberia sobre isso. Ou o que é pior: não estariam interessados em saber, porque a sua pseodociência os conduz para uma interpretação meramente mecânica, onde não há espaço para uma inteligência emotiva, de modo que seriam os cientistas que combatem o direito da humanidade na medida em que estariam dando crédito às idiotices das autoridades. Estariam glorificando a brutalidade da violência e do poder, aplaudindo a vitória do mais forte sobre o mais fraco.
O autor questiona a capacidade da ciência de elevar a consciência social ao nível de não reincidir sempre nos mesmos erros, pois o abismo entre a ciência ensinada nas universidades e a que é oficialmente praticada pelo estado seria irreconciliável, assim como o isolamento do povo frente a uma cultura crítica.
Para Pierre Ramus, o grande legado de Tolstoi para a história universal da humanidade estaria em ter mostrado que o caminho do assim denominado ‘esclarecimento’, da ‘formação’ e da ‘educação científica’ para alcançar a verdadeira liberdade passaria na verdade por um grande descaminho, pois quando se imagina ter chegado ao objetivo, só então se percebe o quanto ainda há a ser percorrido.
Como ilustração das ideias de Tolstoi, Pierre Ramus cita a Alemanha de 1935. A esta época não haveria povo mais ‘esclarecido’ do que o alemão. Praticada a gerações, a obrigatoriedade escolar, teria erradicado o analfabetismo. Nenhum povo teria uma literatura tão vasta e tão divulgada; talvez o povo alemão fosse o mais letrado do mundo. Mas nem por isso – ou por isso mesmo – foi vítima dos engodos de um ditador como Hitler. A Alemanha estaria tolerando e suportando a bestialiadade e a desumanidade do nazismo.
A partir deste ponto o autor passa a buscar as razões de tal situação. A única explicação cabível seria esta: O Império Alemão, a Prússia e a República de Weimar seriam produtos de uma tendência de desenvolvimento, que em sua construção autoritária, apesar do seu intelectualismo, teria criado seres desalmados, destruindo seu senso de autocrítica até o ponto de fazer de seus cidadãos meros objetos mecânicos de obediência. Este feito só se tornara possível na medida em que Hitler teria conseguido afastar o povo alemão das autênticas raízes cristãs, sejam elas católicas ou protestantes.
Como se já não bastasse, o esvaziamento dessas religiões através dos ritos, cerimônias e dogmas, Hitler as teria levado ao ponto de serem escravizadas pelo estado. Com razão teria o fanatismo nazista consciência na sua brutalidade de que o Cristianismo autêntico não toleraria qualquer autoritarismo, violência, imperialismo, injustiça, difamação humana, muito menos extermínio.
Neste sentido o Nazismo teria conduzido as massas, facilmente manipuláveis, a um ardor fanático, em prol de uma guerra santa, onde o sacrifício na busca dos objetivos ter-se-ia tornado incondicional. Tolstoi seria o primeiro a ter descoberto o calcanhar de Aquiles da violência, do poder, da autoridade e do domínio. Todos eles teriam como fundamento forças ditas sobrenaturais que prometem a santidade. Seria a teologia que em nome da religião, envolta em mistérios, impenetrável ao espírito popular, que estaria promovendo esta santificação da violência, do poder e do sacrifício. Somente na medida em que o ser humano, desde sua juventude recebe da religião os ensinamentos de obediência perante o poder, o domínio, a violência, a autoridade, ele seria uma obra perfeita do seu criador. Só esta ideologia seria capaz de manter a ordem universal dos estados, da exploração monopolista e da guerra.
O principal mérito de Tolstoi estaria em ter mostrado em suas reflexões que o fundamento de todas as instituições autoritárias repousa sobre uma mentira, ensinada a todas as pessoas. Enquanto acreditarem nesta mentira não seriam livres, pois funcionariam como instrumentos das autoridades e de suas necessidades. Esta mentira consistiria basicamente em uma monumental falsificação do que formaria o verdadeiro sentido e objetivo do cristianismo. Tratar-se-ia de uma falsificação histórica universal do cristianismo, na qual os elementos de visão de mundo do paganismo e do mosaismo reconhecem ambos o domínio, a submissão, a violência, a guerra, como algo agradável a Deus e como necessário; e tudo isso em nome de um cristianismo mumificado sob a tutela do catolicismo e do protestantismo. Apenas o anarquismo estaria em condições de colocar em prática os autênticos valores do cristianismo, já que visa uma organização social sem a interferência de um poder central.
Segundo o autor, Tolstoi é aquele que pela primeira vez teria revelado esta monstruosa falsificação da ideia de Deus e do cristianismo. Em seus ensaios “Mein Glauben” (“No que acredito”), “Kurze Darlegung des Evangeliums” (“Apresentação sucinta dos Evangelhos”), “Kritik der Teologie” (“Crítica à Teologia”) ele teria revelado à humanidade um novo e verdadeiro cristianismo que teria como eixo central a inteligência, capaz de conduzir o ser humano a um mundo pacífico. Cristo não seria superior a outros profetas, como por exemplo Buda. O conceito de Tolstoi sobre o divino se afastaria de qualquer imaginário metafísico, de qualquer espiritismo, de toda teosofia, de qualquer ocultismo e naturalmente de toda teologia e de todo o clero. >
No dia da renovação do mundo [...] Mt 19,28 Perguntar-lhe-ão OS JUSTOS: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ... te demos de beber? Quando foi ... que te acolhemos, nu e te vestimos? .. enfermo ou na prisão e te fomos visitar?’ Responderá o Rei: ‘Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes’”. Mt 25,31-46
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Que vivam os mortos!
Cansado de procurar entre os vivos alguém que estivesse disposto a seguir comigo fielmente os ensinamentos de Jesus Cristo, pedi a ele que me levasse ao mundo dos mortos. E ele me levou. Vi ali uma multidão infinita. Todos apontavam para ele e diziam:
- Mestre, tu és o Senhor da vida! Dá-nos uma segunda chance para mostrarmos aos vivos como os teus ensinamentos salvam.Olhando para mim como quem entende a pergunta, ele disse:
- Qualquer um deles terá uma segunda chance, mas é preciso que alguém do mundo dos vivos dê a vida por eles. Senti então uma tristeza profunda, uma solidão insuportável, como quem espera eternamente por alguém que não vem. Ao ver meu irmão ali não tive dúvidas, dei-lhe a minha vida para que pudesse ter uma segunda chance.
Saímos de lá de mãos dadas, Jesus Cristo, meu irmão e eu.
Mas andando pelas ruas, conversando com as pessoas, não nos veem, nem ao mestre nem ao irmão nem a mim. Perguntei perplexo aos dois:
- Por que não nos veem?
Rindo, me explicaram:
- Somente aquele que desce à mansão dos mortos e/ou aquele que dá a sua vida por amor aos irmãos pode ver e compreender.
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
Qual a missão de um servo de Cristo?
"Eis o meu servo, eu o recebo; eis o meu eleito, nele se compraz minha alma. Pus sobre ele o meu espírito para promover o julgamento das nações. Não clama nem eleva sua voz nem se faz ouvir pelas ruas. Não quebra um caniço rachado nem apaga um pavio que ainda fumega, mas promoverá o julgamento para obter a verdade. Não esmorecerá nem se deixará abater enquanto não estabelecer a justiça na terra. As nações distantes esperam os seus ensinamentos.
Eu o Senhor te tomei pela mão e te chamei para a justiça. Te formei e te constitui como centro de aliança para o povo, luz das nações, para abrires os olhos aos cegos, livrar os cativos da prisão e tirar do cárcere os que vivem nas trevas." (Is 42, 1-7)
Eu o Senhor te tomei pela mão e te chamei para a justiça. Te formei e te constitui como centro de aliança para o povo, luz das nações, para abrires os olhos aos cegos, livrar os cativos da prisão e tirar do cárcere os que vivem nas trevas." (Is 42, 1-7)
terça-feira, 5 de julho de 2011
Cremos no mesmo Deus?
Deus é aquele ao qual obedecemos, para quem ofertamos nossas energias e pelo qual somos capazes de grandes sacrifícios. É aquele pelo qual lutamos do amanhecer até tarde da noite e não nos cansamos nunca de buscá-lo, faça chuva, faça sol. E quando o encontramos, o nosso coração vibra e se fortalece. Quanto mais perto estamos dele, mais o queremos conosco e quanto mais o buscamos com seriedade mais ele fica conosco.
Por isso nossa confiança repousa sobre ele. Nos momentos mais difíceis ele está do nosso lado para nos aquecer, nos dar conforto e segurança. Na sua presença tornamo-nos fortes e não nos deixamos abater.
Qual é o seu Deus senão aquele no qual você mora, no qual você anda, no qual você se concentra? O nosso Deus não pode ser o mesmo porque andamos com Deuses diferentes, moramos em Deuses diferentes e somos comandados por Deuses diferentes. O nosso Deus não se deixa dividir. Porquanto sempre será um Deus injusto que colhe onde não semeou e nunca será todo poderoso.
"Sois Deuses. Sois todos filhos do Altíssimo. Contudo morrereis como simples homens, como qualquer príncipe caireis." (Sl 81?)
Por isso nossa confiança repousa sobre ele. Nos momentos mais difíceis ele está do nosso lado para nos aquecer, nos dar conforto e segurança. Na sua presença tornamo-nos fortes e não nos deixamos abater.
Qual é o seu Deus senão aquele no qual você mora, no qual você anda, no qual você se concentra? O nosso Deus não pode ser o mesmo porque andamos com Deuses diferentes, moramos em Deuses diferentes e somos comandados por Deuses diferentes. O nosso Deus não se deixa dividir. Porquanto sempre será um Deus injusto que colhe onde não semeou e nunca será todo poderoso.
"Sois Deuses. Sois todos filhos do Altíssimo. Contudo morrereis como simples homens, como qualquer príncipe caireis." (Sl 81?)
sábado, 21 de maio de 2011
Deus castiga?
Se eu, imperfeito, que tantas vezes feri pessoas, tornei-me um homem incapaz de ferir, imagina então Deus! Ele em sua bondade infinita jamais vai castigar alguém.
Quem castiga é o Demônio e depois de fazê-lo põe a culpa em Deus.
Sirva de exemplo o caso das enchentes. Quem primeiro sofre com elas são os mais pobres. O sistema injusto do Demônio explora as pessoas e a natureza, vacila os fundamentos da terra, empurra os mais fracos para a periferia e quando vêm as enchentes, as tempestades, os terremotos etc. põe a culpa em Deus.
Quem castiga é o Demônio e depois de fazê-lo põe a culpa em Deus.
Sirva de exemplo o caso das enchentes. Quem primeiro sofre com elas são os mais pobres. O sistema injusto do Demônio explora as pessoas e a natureza, vacila os fundamentos da terra, empurra os mais fracos para a periferia e quando vêm as enchentes, as tempestades, os terremotos etc. põe a culpa em Deus.
sábado, 23 de abril de 2011
A passagem
Para esta viagem, não há nada a se comprar.
Você só tem a perder.
Começa com aquela que você mais ama.
Ela é a primeira que, por uma série de razões, não pode partir com você.
Por isso, fica no seu canto. Nem pense em comprar esta passagem!
Por outro lado, você vai correr o risco de perder o seu emprego.
Isto seria um golpe fatal para você. Sem a sua amada, você ainda sobrevive,
Mas sem o seu emprego o mundo vai desmoronar sobre a sua cabeça.
Então fecha a sua boca e não fale coisas inconvenientes no seu emprego.
As coisas que você diz são profundas e verdadeiras, as pessoas vão admirar você por isso.
Mas não se engane, na hora H, você vai estar sozinho. Ninguém mais vai embarcar com você.
Na sua solidão estarão zombando de você. Então não faça o que fiz, você não tem de passar por isso. Fica no seu mundo, onde você sempre vai encontrar pessoas para apoiá-lo.
Se você pegar esse trem e vir pra cá, não terá mais como voltar. E aqui as coisas não funcionam como no seu mundo, onde cada um cuida da sua vida. Aqui você vê tudo em um espelho gigante e não se alegra, dando graças a Deus, pois nada de mal acontece a você. Aqui o mal feito ao outro atinge diretamente o seu cérebro e penetra na sua carne como espada cortante. Por isso, fica no seu mundo e nada disso vai lhe acontecer. Procure o máximo de segurança, mantenha as portas sempre bem trancadas e reze para que esses males não lhe perturbem. Essa é a melhor forma de se proteger. O menor vacilo pode ser fatal. Se você der uma brecha, pode ser assaltado por um sentimento diferente e querer colocar-se no caminho para cá e então você não vai ter mais sossego.
A única vantagem aqui é que você aprende a não ter medo da morte. É tipo um vale brinde que acompanha a passagem. Mas não é algo garantido, você vai precisar do outro para realizar esta passagem. Se na travessia você estiver sozinho, você fatalmente vai morrer, embora você tenha a certeza de que em algum momento e pode demorar dois mil anos, você terá nova chance. O saco disso tudo é que não dá para se salvar sozinho. Mais uma razão para você ficar no seu mundinho. Lá a salvação depende só de você. Aqui enquanto houver uma só criança passando fome, enquanto houver um só desempregado, enquanto houver uma só violência de ser humano contra ser humano, a passagem não estará completada, o pai vai cobrar na sua cara a falta daquele filho.
Você só tem a perder.
Começa com aquela que você mais ama.
Ela é a primeira que, por uma série de razões, não pode partir com você.
Por isso, fica no seu canto. Nem pense em comprar esta passagem!
Por outro lado, você vai correr o risco de perder o seu emprego.
Isto seria um golpe fatal para você. Sem a sua amada, você ainda sobrevive,
Mas sem o seu emprego o mundo vai desmoronar sobre a sua cabeça.
Então fecha a sua boca e não fale coisas inconvenientes no seu emprego.
As coisas que você diz são profundas e verdadeiras, as pessoas vão admirar você por isso.
Mas não se engane, na hora H, você vai estar sozinho. Ninguém mais vai embarcar com você.
Na sua solidão estarão zombando de você. Então não faça o que fiz, você não tem de passar por isso. Fica no seu mundo, onde você sempre vai encontrar pessoas para apoiá-lo.
Se você pegar esse trem e vir pra cá, não terá mais como voltar. E aqui as coisas não funcionam como no seu mundo, onde cada um cuida da sua vida. Aqui você vê tudo em um espelho gigante e não se alegra, dando graças a Deus, pois nada de mal acontece a você. Aqui o mal feito ao outro atinge diretamente o seu cérebro e penetra na sua carne como espada cortante. Por isso, fica no seu mundo e nada disso vai lhe acontecer. Procure o máximo de segurança, mantenha as portas sempre bem trancadas e reze para que esses males não lhe perturbem. Essa é a melhor forma de se proteger. O menor vacilo pode ser fatal. Se você der uma brecha, pode ser assaltado por um sentimento diferente e querer colocar-se no caminho para cá e então você não vai ter mais sossego.
A única vantagem aqui é que você aprende a não ter medo da morte. É tipo um vale brinde que acompanha a passagem. Mas não é algo garantido, você vai precisar do outro para realizar esta passagem. Se na travessia você estiver sozinho, você fatalmente vai morrer, embora você tenha a certeza de que em algum momento e pode demorar dois mil anos, você terá nova chance. O saco disso tudo é que não dá para se salvar sozinho. Mais uma razão para você ficar no seu mundinho. Lá a salvação depende só de você. Aqui enquanto houver uma só criança passando fome, enquanto houver um só desempregado, enquanto houver uma só violência de ser humano contra ser humano, a passagem não estará completada, o pai vai cobrar na sua cara a falta daquele filho.
domingo, 20 de março de 2011
Sobre o Filho Pródigo
O filho mais moço pede ao pai sua herança porque não quer compartilhar aquilo que lhe pertence com o irmão e o pai, pois acredita que a sua maneira vai se sair bem melhor.
O pai, mesmo sabendo que o filho mais moço com essa atitude iria se esborrachar, não o impede de agir a seu modo. O pai sabe que a única maneira de educar seu filho é permitir-lhe o erro. Quando o filho ficar sem alimentos, maltratado, escravizado, sem liberdade de escolha, então vai lembrar-se do pai.
Somos nós o filho pródigo que insiste em não compartilhar os bens. Mas estamos muito próximos de voltar para a casa do pai e do nosso irmão que nos dão a lição da partilha.
O pai, mesmo sabendo que o filho mais moço com essa atitude iria se esborrachar, não o impede de agir a seu modo. O pai sabe que a única maneira de educar seu filho é permitir-lhe o erro. Quando o filho ficar sem alimentos, maltratado, escravizado, sem liberdade de escolha, então vai lembrar-se do pai.
Somos nós o filho pródigo que insiste em não compartilhar os bens. Mas estamos muito próximos de voltar para a casa do pai e do nosso irmão que nos dão a lição da partilha.
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